Por Francisco Langa
O julgamento de Venâncio Mondlane, figura associada ao partido PODEMOS e uma das vozes mais expressivas do descontentamento popular em Moçambique, ultrapassa a pessoa do próprio político. Para muitos moçambicanos, Venâncio tornou-se um representante de um sentimento que há muito vinha crescendo na sociedade: o sentimento de quem quer ser ouvido, respeitado e levado em consideração.
Por isso, julgar Venâncio Mondlane é, para uma parte significativa da população, julgar também o sentimento de um povo. E condená-lo poderá ser interpretado por muitos como uma condenação das aspirações e das frustrações que levaram milhares de cidadãos às ruas.
As manifestações populares não aconteceram no vazio. Foram resultado de um descontentamento acumulado e da percepção de que a voz do cidadão comum não estava a ser suficientemente ouvida pelas instituições.
É importante, porém, separar responsabilidades. Não me recordo de ter ouvido Venâncio Mondlane dizer ao povo: “vamos vandalizar tudo”. Os actos de vandalismo, destruição e violência praticados por alguns cidadãos devem ser individualmente investigados e responsabilizados, porque nenhuma reivindicação legítima justifica a destruição de bens ou a violência contra pessoas.
Mas também é preciso perguntar: o que levou milhares de pessoas a sair às ruas?
Se queremos compreender verdadeiramente a crise, não basta olhar para os actos praticados durante os protestos. É necessário olhar também para as causas profundas que levaram o povo a protestar.
O povo saiu à rua porque sentiu que não estava a ser ouvido.
Por isso, a minha expectativa é que o tribunal, ao analisar este processo, não veja apenas um réu sentado no banco dos acusados. Que veja também o contexto social e político que está por detrás deste julgamento e procure compreender o sentimento de milhões de moçambicanos.
A justiça deve responsabilizar quem comete crimes, mas também deve saber ouvir o grito de uma sociedade.
Que o tribunal compreenda o sentimento do povo moçambicano e que este momento sirva para abrir caminhos ao diálogo, à reconciliação e ao fortalecimento da democracia.





