Início Nacional 25 DE SETEMBRO – Convido-nos a recomeçar Severino Ngoenha

25 DE SETEMBRO – Convido-nos a recomeçar Severino Ngoenha

Vinte e cinco.

A manhã volta a dizer a data devagar,

como quem chama pelos vivos

para contar quantos ainda vão.

Houve um tempo em que o inimigo tinha cara.

Era o colono, era o dono do suor,

era o arame que dividia a terra

e a régua que riscava o mapa.

E para o vencer não bastou a coragem de cada um:

foi preciso sermos muitos,

foi preciso sermos um.

Foi essa unidade que abriu a porta,

e nenhum de nós a abriu sozinho.

Depois o arame caiu.

E ficámos nós.

E o adversário de agora já não tem cara.

Não é o homem que dorme do outro lado do rio,

não é o outro partido,

não é a outra tribo, não é a outra etnia.

O adversário de agora é a fome.

É a pobreza que se herda como um nome de família.

É a violência que se vai tornando natural entre nós.

É a discriminação que decide, antes de nascermos,

o lugar onde vamos caber.

Nada disto se vence com um inimigo em frente,

porque nada disto está fora de nós.

Não nos enganemos de luta.

A coragem de que agora precisamos

não canta nem desfila.

É mais nua do que a outra,

porque nenhum hino toca

quando se combate aquilo que se é.

E o eu só tem valor quando fortalece o nós.

E o nós só vale se em cada um de nós

puder crescer inteira a sua liberdade.

E tu, que me lês com o teu juízo na mão,

tu, que pensas de mim o que eu penso de ti,

não te venho pedir que penses como eu.

Venho pedir-te o que nenhum discurso substitui:

que te sentes comigo à mesma mesa,

que me deixes dizer e que te deixes dizer,

até encontrarmos aquilo que não é teu nem meu

e que, por não ser de nenhum de nós,

pode finalmente ser de todos.

Por isso, amanhã não me contento com perguntar

o que fez Moçambique por mim.

Pergunto em voz alta, e respondo em voz alta,

e é a esta pergunta que vos convido:

o que fiz eu, hoje, com o Moçambique que tenho nas mãos?

O que fiz pela verdade, quando a verdade me custava?

O que fiz pela paz, quando me davam razão para a guerra?

O que fiz pela reconciliação, quando ainda me doía a memória?

O que fiz pelo consenso, que não é calar ninguém

nem dar razão a todos,

mas construir aquilo que podemos dizer juntos?

Os pobres têm de sentir que valeu a pena.

Os novos têm de sentir que contam,

não nos números, não nas estatísticas,

mas na vida que se faz com as mãos de todos.

Vinte e cinco não é uma data morta.

É a seta gravada na pedra

a apontar o caminho que ainda não andámos.

A luta continua a começar,

e começa sobretudo nos dias em que não dói,

nos dias em que ninguém nos vê,

quando ninguém está a aplaudir.

E basta um recomeçar para que o país recomece.

Convido-nos a recomeçar.

Severino Ngoenha

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