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Entre o amor e o preconceito: o que acontece quando um filho diz “sou gay”?

Por: Milda Langa

“Se amanhã o seu filho disser que é gay, o que fará?”

A pergunta pode parecer simples, mas, em muitas famílias moçambicanas, ainda é capaz de provocar silêncio, choque, rejeição e até ruptura. Para alguns pais, a orientação sexual de um filho continua a ser encarada como vergonha, desvio ou uma afronta aos valores familiares. Para outros, sobretudo entre as gerações mais jovens e em determinados espaços urbanos, começa a existir maior abertura para compreender e aceitar a diversidade sexual. Mas a mudança ainda está longe de ser completa.

Por trás das discussões sobre LGBTI+ existem jovens que enfrentam bullying na escola, insultos nos bairros, discriminação no trabalho e, em alguns casos, rejeição dentro da própria casa.

“É uma aberração”

A Quaria News colocou a cinco pais a mesma pergunta: “Se tivesse um filho gay, o que faria?”

Para alguns pais, a reação é rejeição: “Eu não aceitaria. Para mim, isso é uma aberração e não gostaria que o meu filho fosse assim. Não é normal gostar de alguém do mesmo sexo, isso deve ser doença ou um demonio.” Disse.

Outro outro pai respondeu a nossa equipe de reportagem que não seria fácil para ele. “Seria muito difícil para mim aceitar. Fui educado de outra maneira e não saberia como lidar com essa situação.” Respondeu.

Há ainda quem veja a orientação sexual do filho como uma questão de honra familiar: “Eu teria medo daquilo que os outros iriam dizer. Na nossa sociedade, a família também é julgada.” Disse.

Existe quem simplesmente não saiba o que fazer: “Talvez no início rejeitasse, mas depois procuraria conversar e entender melhor. É meu filho e não iria mudar nada se for de uma orientação sexual que eu não desejo. Tenho de respeitar e aceitar do jeito que ele é. Nada mudaria, continuaria sendo meu filho.” Disse.

Essas respostas mostram que, em Moçambique, a questão não é simplesmente aceitar ou rejeitar. Existe também ignorância, medo, pressão social e falta de informação.

Quando a escola se transforma num campo de batalha!

Para muitos jovens, o preconceito começa muito antes de assumirem publicamente a sua orientação sexual. Um rapaz que fala de determinada maneira, que não gosta de futebol ou que apresenta comportamentos considerados “femininos” pode tornar-se alvo de insultos. Uma rapariga considerada “masculinizada” pode enfrentar a mesma situação. Na escola, o bullying pode transformar-se numa rotina de humilhação: nomes ofensivos, risos, isolamento, ameaças e exposição diante dos colegas. E muitas vítimas preferem permanecer caladas. Não porque não sofram, mas porque têm medo de contar aos colegas, professores ou aos pais.

O que vão dizer os vizinhos?

Em muitas famílias, a preocupação não termina no que acontece dentro de casa. Existe também o olhar da comunidade. O que vão dizer os vizinhos? Como vamos explicar isso à família? Como ir a igreja mesquita? E quando ele crescer, com quem vai casar? Terá filhos? Com que moral irá criá-los?

São perguntas que podem transformar a orientação sexual de um filho numa espécie de problema colectivo. A pressão social pode levar alguns pais a tentar esconder a situação, obrigar o filho a manter relacionamentos que não deseja ou pressioná-lo a casar para provar à comunidade que é normal. Nas cidades há mais abertura, mas o preconceito não desapareceu. Maputo e outras grandes cidades oferecem hoje espaços onde o debate sobre orientação sexual é mais visível. As redes sociais também permitiram que jovens encontrem informação, comunidades e pessoas com experiências semelhantes.

Mas seria errado concluir que o preconceito deixou de existir nas cidades. Ele apenas pode assumir formas diferentes. Pode aparecer numa piada, num insulto, numa oportunidade de emprego perdida, numa expulsão de casa, numa humilhação pública ou simplesmente no medo de revelar quem se é. Fora dos grandes centros urbanos, onde as comunidades podem ser mais pequenas e a vida privada mais facilmente exposta, a pressão social pode assumir outras dimensões. Quando a família deixa de ser abrigo. Talvez uma das questões mais dolorosas seja esta:

O que acontece quando a pessoa que deveria proteger passa a ser a pessoa que rejeita?

Um jovem pode suportar os comentários dos colegas. Pode bloquear alguém nas redes sociais. Pode afastar-se de determinados círculos. Mas quando a rejeição vem do pai ou da mãe, a ferida é diferente. A casa deixa de ser um lugar seguro. E alguns jovens acabam por esconder durante anos aquilo que sentem, vivendo uma vida construída para satisfazer expectativas familiares. Não compreender não é o mesmo que odiar. Para alguns pais, a dificuldade de aceitar pode estar relacionada com a educação que receberam, valores culturais, religiosos ou simplesmente falta de informação.

Isso não significa que toda a pessoa que tenha dúvidas seja necessariamente homofóbica. O problema começa quando a incompreensão se transforma em humilhação, violência, expulsão, discriminação ou tentativa de destruir a dignidade de outra pessoa. É possível discordar de alguém sem o agredir. É possível não compreender imediatamente sem abandonar um filho. E é possível precisar de tempo para aceitar sem transformar uma pessoa em inimiga.

E se fosse o seu filho? A pergunta continua. Se hoje o seu filho entrasse pela porta de casa e dissesse: “Pai, mãe, eu sou gay”, qual seria a sua primeira reacção?

Gritaria?

Expulsaria?

Negaria?

Tentaria corrigi-lo?

Ou sentaria ao lado dele e perguntaria:“Estás bem? Como posso ajudar-te?” A discussão sobre LGBTI+ em Moçambique não pode limitar-se a rótulos ou guerras de opiniões. Por trás de cada letra da sigla existem pessoas. E, para muitas delas, a primeira batalha pela dignidade não acontece na rua. Acontece dentro de casa.

Milda Langa

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