O Presidente da República de Moçambique, Daniel Francisco Chapo, protagonizou uma reviravolta na liderança do Banco de Moçambique ao revogar, em menos de 24 horas, a nomeação de Waldemar Fernando de Sousa para o cargo de governador da instituição.
A decisão inicial foi anunciada na segunda-feira, 31 de Agosto de 2026, quando Chapo nomeou Waldemar Fernando de Sousa para substituir Rogério Zandamela, que esteve à frente do Banco de Moçambique durante cerca de uma década. Na mesma decisão, Felisberto Dinis Navalha havia sido indicado para o cargo de vice-governador.
Contudo, a Presidência voltou atrás poucas horas depois. Segundo informações divulgadas pela imprensa moçambicana, o Chefe do Estado revogou os instrumentos de nomeação por causa de “questões supervenientes”, abrindo caminho para uma nova composição da direcção do banco central, tendo Felisberto Navalha passado de vice a governador.
A mudança representa uma das mais rápidas reversões numa nomeação de alto nível da actual administração, colocando o Banco de Moçambique no centro das atenções políticas e económicas do país.
A primeira escolha, Waldemar Fernando de Sousa, também gerou debate público devido ao seu passado como administrador do Banco de Moçambique e à sua ligação processual ao caso das chamadas “dívidas ocultas”. A existência de um processo, contudo, não equivale a uma condenação.
Esta sucessão encerra o ciclo de Rogério Zandamela à frente do Banco de Moçambique, o economista que assumiu a liderança da instituição em 2016 e permaneceu no cargo durante aproximadamente dez anos.
O Banco de Moçambique desempenha um papel central na estabilidade monetária e financeira do país, incluindo a condução da política monetária e cambial e a supervisão do sistema financeiro.
A rápida alteração decidida por Daniel Chapo levanta agora questões sobre os critérios que estiveram na origem da primeira nomeação e sobre as circunstâncias que levaram à sua revogação.
O director do Centro de Integridade Pública (CIP), Edson Cortez, questionou duramente o processo que levou à revogação da nomeação de Waldemar Fernando de Sousa para governador do Banco de Moçambique, depois de a decisão presidencial ter sido tornada pública.
Num texto publicado na sua página de Facebook, Cortez considera difícil compreender como é que uma nomeação para um cargo de tamanha relevância possa ter sido anunciada e, em seguida, revertida em menos de 24 horas.
O responsável do CIP começa por recordar que o anterior governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, já vinha dando sinais públicos de que o seu mandato estava próximo do fim “O Mano Zandas andou por aí a dar conferências de imprensa e a falar do síndrome de final do mandato. Todos nós sabíamos que em Setembro, ele bazava.”
A partir daí, Cortez questiona a preparação do processo de sucessão, defendendo que o Presidente da República, Daniel Chapo, deveria ter tido tempo suficiente para avaliar os potenciais candidatos antes de anunciar a escolha. Segundo o director do CIP, seria expectável que a Presidência tivesse elaborado previamente uma lista de potenciais sucessores e realizado as devidas consultas sobre os candidatos.
“O Presidente da República sabia, deve ter feito uma short-list dos potenciais sucessores, suponho que deve ter conversado com os visados”, escreveu Cortez, acrescentando, de forma irónica, que o escolhido deveria ter sido informado antecipadamente para se preparar para a tomada de posse.
“Afinal para que servem” os órgãos do Estado? A principal crítica de Edson Cortez está relacionada com a aparente falta de verificação prévia sobre o candidato inicialmente escolhido.
Na sua avaliação, anota que se existiam informações relevantes sobre o passado de Waldemar de Sousa que poderiam impedir a sua nomeação, essas informações deveriam ter sido conhecidas antes do anúncio presidencial.
“Parece que apenas ontem, o PR descobre que o nomeado tem alguns ximokos do passado e não pode tomar posse”, afirmou.
Cortez questiona directamente o papel das estruturas do Estado que poderiam, segundo ele, fornecer informações para apoiar o Presidente na tomada de decisões “a pergunta que não quer calar é: afinal para que servem esses freaks todos que vivem do nosso erário público?”, escreveu, mencionando entre outros os assessores presidenciais, o Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE) e a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Para Cortez, essas instituições deveriam contribuir para uma avaliação antecipada dos candidatos a cargos públicos de elevada responsabilidade.
O director do CIP vai mais longe e acusa a máquina do Estado de estar mais preocupada com a perseguição e o levantamento da vida de pessoas que pensam de forma diferente do poder do que com a realização eficiente das suas funções.
“A incompetência está em todo lado”. No seu post de facebook, Cortez classifica o episódio como um sinal de incompetência institucional “Eu acho que estamos mal, a incompetência está em todo lado nesta pérola do Índico, nem a instituição Presidência da República escapa”, escreveu.
Na sua opinião, os responsáveis por eventuais falhas no processo deveriam ser responsabilizados e, caso se confirme que não cumpriram as suas funções, afastados dos cargos “Aqueles que não fizeram o seu trabalho, deveriam ser demitidos”, defendeu.
O numero um do CIP, aproveitou ainda o episódio para chamar atenção para uma questão mais ampla: a morosidade dos processos judiciais em Moçambique e observou que a situação envolvendo o candidato inicialmente escolhido demonstra os efeitos de processos que se prolongam durante muito tempo, deixando pessoas numa situação de incerteza jurídica.
“Estão a ver resultados da morosidade processual, as pessoas vivem num eterno limbo, sem saberem se são inocentes ou culpadas”, escreveu. Cortez encerrou a sua publicação com uma expressão que resume o tom crítico do texto: “Mas enfim….Moz não é para fracos.” . (Atlas Orion)





