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“Não podemos aprender a conviver com o terrorismo: deve haver mais transparência do Governo,” alerta Padre Kiwiri Fonseca!

O terrorismo que assola a província de Cabo Delgado há quase nove anos continua a produzir efeitos que ultrapassam as mortes e a destruição provocadas pelos ataques. O conflito tem agravado a vulnerabilidade de crianças, mulheres e jovens, alimentado deslocações forçadas e criado condições para o recrutamento de adolescentes, enquanto comunidades inteiras permanecem expostas à insegurança e à pobreza. Em entrevista ao Quaria News, o Padre Kiwiri Fonseca considera que a persistência do conflito está relacionada com a própria complexidade do terrorismo, que, na sua avaliação, possui estruturas, logística, capacidade de recrutamento e possíveis ligações com redes terroristas externas.

Para o sacerdote, não é realista esperar que um fenómeno desta natureza seja eliminado de um dia para outro. “Todo terrorismo preparado, como aconteceu este, porque já está aqui em Cabo Delgado há muito tempo, conforme várias pesquisas, é difícil ser eliminado assim de um dia para outro.” Segundo Fonseca, a capacidade de actuação dos grupos armados está também relacionada com o conhecimento que possuem sobre Cabo Delgado e as regiões circundantes. “É algo bem estruturado, com várias conexões e entendimento também de Cabo Delgado e arredores. Eles dominam muito aqui na região.” Rematou Fonseca.

Recrutamento: entre a exclusão e o rapto um dos aspectos que mais preocupa o sacerdote é o recrutamento de jovens, adolescentes e crianças. Fonseca entende que as motivações são diversas e não podem ser explicadas apenas por uma causa. De um lado, existem jovens que, perante a falta de oportunidades, exclusão social, ausência de emprego e acesso limitado aos serviços públicos, podem tornar-se vulneráveis ao aliciamento. Do outro, existem vítimas de rapto e recrutamento forçado. “Tem adolescentes e jovens que estão sendo raptados, recrutados e forçados a aceitar essa forma de vida, que é de ser terrorista.” Afirmou ainda.

Outrossim, o sacerdote acrescentou que há jovens que aderem voluntariamente por acreditarem que estão a participar numa luta justa ou que, através dela, poderão resolver os seus problemas e reivindicar aquilo que consideram legítimo. Na sua perspectiva, rebeldia, descontentamento, ausência de oportunidades e estratégias deliberadas de recrutamento utilizadas pelos grupos armados acabam por se cruzar. “O terrorismo não pode ser só olhado do ponto de vista da pobreza.”

Embora reconheça a pobreza, a exclusão e a desigualdade como factores que podem contribuir para a vulnerabilidade das populações, Kiwiri Fonseca rejeita uma leitura que reduza o terrorismo à pobreza. “O terrorismo não pode ser só olhado do ponto de vista da pobreza.” O sacerdote observa que nem todas as pessoas envolvidas em movimentos terroristas são pobres e considera que existem diferentes interesses e motivações por detrás da adesão ao extremismo violento.Para Fonseca, a ausência do Estado em determinadas comunidades constitui igualmente um problema.

Contudo, o sacerdote refere ter encontrado aldeias com acesso muito limitado a serviços básicos, como saúde, educação e estradas. “Encontro algumas aldeias que nunca tiveram acesso a serviços formais, como a saúde, como a educação, como a estrada.” É neste contexto que defende uma presença mais permanente do Estado, não apenas através das forças de segurança, mas também por meio de serviços públicos e de um contacto regular com as populações.

Segurança: Governo deve comunicar com clareza se explicar sobre a situação de Cabo Delgado. Outro dos pontos centrais levantados pelo Padre Kiwiri Fonseca é a comunicação das autoridades sobre a evolução da situação de segurança em Cabo Delgado. O sacerdote considera insuficiente a afirmação genérica de que a segurança está a melhorar. Para ele, o Governo deve explicar concretamente onde foram registadas melhorias e quais zonas podem ser consideradas seguras. “Eu insisto e peço que o Governo apareça várias vezes, dizendo que, de facto, a segurança está a melhorar e de que forma está a melhorar, quais são as partes que já melhoraram, onde se pode ir lá sem medo.” Rematou.

Entretanto, Fonseca questiona se, perante os anúncios de melhoria da segurança, os cidadãos já podem circular livremente por zonas como Mucujo e Pangane ou viajar de Silva Macua para Mocímboa da Praia e Palma com garantias de segurança. “E, se nós podemos viajar, chegaremos seguros?” Questionou. Desse modo, para o sacerdote, a comunicação deve ser contínua e transparente. “O povo quer saber o que está exactamente acontecendo de forma clara.” A ausência de informações concretas, na sua opinião, pode aumentar a desconfiança das populações, sobretudo quando continuam a surgir relatos de raptos e ataques. Investimento não deve esconder a realidade da guerra.

Fonseca também manifesta preocupação com a possibilidade de o discurso sobre os investimentos em Cabo Delgado acabar por ocupar o espaço da discussão sobre a segurança. Na sua perspectiva, não basta transmitir confiança aos investidores enquanto as populações continuam sem respostas claras sobre a situação no terreno. “Não tem como só falar aos investidores que estamos bem e o povo ainda continuar tímido.” Para o sacerdote, é necessário haver “seriedade” na comunicação oficial e actualizações regulares sobre a evolução da segurança. Mulheres e meninas entre as principais vítimas. A guerra, segundo Fonseca, afecta particularmente os grupos mais vulneráveis, entre os quais crianças, idosos e mulheres.

As mulheres com bebés enfrentam dificuldades adicionais em situações de fuga, enquanto as meninas podem ficar privadas do acesso à educação e expostas a diferentes formas de violência e exploração. Uma das consequências apontadas pelo sacerdote é o recurso ao casamento como suposta estratégia de protecção. “Se casar para sobreviver, se casar porque é o único caminho que os pais encontram para elas ficarem seguras.” Fonseca rejeita esta prática e defende que o casamento não deve ser utilizado como resposta à insegurança. “Não se pode olhar o casamento como uma solução.” Na sua perspectiva, meninas que vivem em zonas de risco devem ser protegidas e, quando necessário, transferidas para locais seguros, onde possam continuar a estudar e desenvolver-se.

O casamento, acrescenta, deve resultar de uma decisão livre e de um projecto de vida entre duas pessoas.Guerra aumenta risco de abusos e casamentos forçados. O sacerdote alerta que, enquanto persistirem a guerra, o terrorismo e a insegurança, as meninas continuarão expostas ao risco de abuso e de casamentos forçados. “Enquanto continuar a guerra, enquanto continuar o terrorismo, enquanto as pessoas estiverem inseguras à procura de sobrevivência, haverá também o risco das meninas serem usadas e abusadas e obrigadas a casar.” Para Fonseca, a resposta passa pela retirada das populações vulneráveis das zonas de conflito, pelo acesso à educação e pelo empoderamento das meninas. “Não tem como conviver as pessoas fragilizadas num lugar de guerra. Nós temos que tirá-las desses ambientes de guerra para que haja decisões claras. Não podemos aprender a conviver com o terrorismo.” Disse.

Outro aspecto que preocupa o Padre Fonseca é aquilo que considera ser uma tendência de relativização do terrorismo. O sacerdote defende que a sociedade e os meios de comunicação devem continuar a denunciar os ataques e a dar visibilidade às vítimas, mesmo quando o debate público passa a concentrar-se nos investimentos e na reconstrução económica de Cabo Delgado. “O meu receio é que continue-se a falar menos, continue-se a falar dos investimentos, mas falta tempo, falta coragem de denunciar sempre este mal.” Para Fonseca, o maior perigo seria a população começar a considerar a violência como parte normal da vida. “Não se pode aceitar isso. Se é um mal, tem que ter denúncia.” Resposta deve ir além da componente militar. Embora reconheça a importância da resposta militar, o sacerdote defende uma estratégia mais ampla para enfrentar o conflito.Na sua opinião, o Governo deve envolver diferentes parceiros, reforçar o contacto com as comunidades, trabalhar directamente com os jovens e manter diálogo com os diversos actores sociais e políticos. Fonseca defende igualmente a necessidade de identificar os responsáveis pela organização e financiamento do terrorismo. “Encontrar os donos dessa guerra, os mandantes, os que financiam, para poder resolver.” Rematou.

O sacerdote considera ainda que devem ser exploradas possibilidades de diálogo e mediação, incluindo o envolvimento de figuras locais que possam contribuir para estabelecer canais de comunicação e compreender as motivações dos grupos envolvidos. O desafio de não normalizar a violência. A intervenção do Padre Fonseca coloca uma questão que permanece no centro do futuro de Cabo Delgado: como combater um conflito que, além da dimensão militar, produz exclusão, deslocação, vulnerabilidade social e perda de oportunidades para uma geração inteira?

Para o sacerdote, a resposta passa por segurança, mas também por presença efectiva do Estado, educação, oportunidades para os jovens, protecção das mulheres e crianças, comunicação transparente e envolvimento das comunidades. Quase nove anos depois do início dos ataques, o alerta é para que o país não se habitue à violência.Porque, na leitura de Mineiro Fonseca, combater o terrorismo não significa apenas derrotar grupos armados no terreno. Significa também impedir que o medo, a exclusão e a violência se transformem numa condição permanente de vida para as populações de Cabo Delgado.

Milda Langa

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