Por: Gilberto Macuácua Harilal
“Sua Excelência, o Presidente da República de Moçambique, como homem e Pai da Nação, pode e deve fazer mais…”
O debate sobre masculinidades positivas tem raízes globais e locais que se entrelaçam. Gary Becker (1991), ao analisar como os comportamentos familiares e sociais moldam o desenvolvimento económico em A Treatise on the Family , abriu espaço para compreender que os papéis de género são sim culturais, mas também estruturais. Simone de Beauvoir (1949), em Le deuxième sexe , mostrou que a identidade das mulheres é construída socialmente, e ao fazê-lo, abriu caminho para que também se questionasse a construção da masculinidade. Elisabeth Badinter (1992), em XY: De l’identité masculine , revelou a fragilidade da masculinidade e a necessidade de libertar os homens de padrões tóxicos que os aprisionam. É importante anotar que, a emancipação dos homens é um passo essencial para que a emancipação das mulheres não seja simplesmente um ideal distante, mas sim, uma realidade concrecta. Libertar os homens de padrões tóxicos é também libertar as mulheres das correntes das desigualdades.
No plano internacional, a Organização das Nações Unidas (1994) destacou, na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento realizada no Cairo, o início da discussão sobre género e saúde reprodutiva em escala global e a necessidade de engajamento activo dos homens. Um ano depois, em Beijing, a Conferência Mundial sobre Mulheres (United Nations, 1995) consolidou a agenda da igualdade de género, reforçando a ideia de que os homens devem ser envolvidos como parceiros nos esforços de luta pela igualdade de género, com uma Plataforma de Acção que permanece como referência até hoje.
Em Moçambique, este debate ganhou corpo em 2008 com o processo de criação da Rede HOPEM (Homens pela Mudança) e o Programa televisivo Homem que é Homem, liderado por Gilberto Macuácua Harilal, que se consolidou em 2009. Estes marcos trouxeram para o país a reflexão sobre masculinidades positivas e abriram espaço para que homens se vissem não somente como beneficiários, mas como agentes de transformação social.
Contudo, os desafios continuam profundos. A violência baseada no género cresce de forma alarmante: só em 2025 foram registados mais de 18.365 casos, contra 18.802 do ano anterior. Deste total, 13.277 foram de natureza criminal (72,3%), 3.928 de natureza cível (21,4%) e 1.160 de outra natureza (6,3%). A taxa de suicídio, de 10,6 por 100 mil habitantes, supera a média mundial e afecta sobretudo homens jovens entre 15 e 29 anos. O consumo de álcool e drogas, aliado ao stress e à falta de cuidados preventivos, contribui para doenças crónicas como AVCs e problemas cardiovasculares, tornando a saúde masculina um campo de vulnerabilidade silenciosa. Ao mesmo tempo, as desigualdades de género acentuam-se diariamente, alimentadas por crenças de que o homem deve dominar e submeter as mulheres, tratando-as como objectos. Esta visão claramente perpetua a violência e bloqueia o caminho para masculinidades positivas e relações mais igualitárias.
A cultura das masculininidades em Moçambique revela ainda uma ausência de agenda oficial de consciencialização. Três temas ocupam quase 80% das conversas entre homens: (1) mulheres junto a performance sexual, (2) álcool e (3) futebol. Esta limitação mostra como falta uma estrutura que permita aos homens reflectirem sobre si mesmos e sobre o impacto das suas escolhas na sociedade. O silêncio, a competição e a estigmatização continuam a ser barreiras que impedem o diálogo honesto e a procura de ajuda profissional.
Neste contexto, é fundamental reconhecer o papel dos líderes e figuras públicas como modelos de masculinidade positiva. O nosso Presidente da República, como homem e pai da nação, já transmite sinais importantes ao aparecer em público de mãos dadas com a Primeira-Dama, uma manifestação de afecto e respeito que inspira. Mas Moçambique precisa de mais: seria transformador ver imagens do Presidente com um avental a cozinhar, a realizar tarefas domésticas, a brincar ou dialogar com os filhos. Estas representações moldariam masculinidades positivas ao mostrar que cuidar, partilhar responsabilidades e expressar afecto são atributos de liderança e humanidade. O mesmo aplica-se aos membros do governo, parlamento, líderes comunitários, religiosos e outros homens influentes incluindo artistas, Presidentes dos Conselhos de Administração, etc…: ao assumirem publicamente práticas de masculinidades positivas, acompanhadas de discursos consistentes, podem inspirar adolescentes, jovens e adultos a repensarem os seus papéis.
A transformação das masculinidades não pode ser superficial. Precisa de ser estrutural, integrando políticas públicas, escolas, meios de comunicação e líderes comunitários. As estratégias devem ser heterogéneas, porque Moçambique não é homogéneo e as masculinidades também não o são. É necessário reconhecer que os contextos urbanos e rurais, as tradições locais e as influências globais produzem masculinidades distintas, que exigem respostas diferenciadas.
Cada homem precisa de compreender que, perante os desafios da violência, do suicídio, das drogas, do alcoolismo, da falta de cuidado, da fragilidade da saúde mental e das desigualdades de género, não há alternativa senão a mudança. As masculinidadee positivas são uma exigência social e histórica. É o caminho para reduzir a violência, salvar vidas e construir comunidades mais saudáveis e igualitárias. Este, é um convite para que os homens moçambicanos deixem de ser reféns de padrões tóxicos e se tornem protagonistas de uma transformação que já não pode ser adiada.
VAMOS LÁ COMBINAR





