Trata-se de um facto que atiça o debate nacional, até porque o jornalista e pesquisador moçambicano Lázaro Mabunda advertiu na sua página de Facebook que “o governo não deve subestimar as criticas vindas de Cabo Delgado”
A realização da Reunião Nacional da Juventude, decorrida na cidade de Pemba, província de Cabo Delgado, entre os dias 10 e 12 de agosto, foi acompanhada, do lado de fora por manifestações de descontentamento de alguns sectores da sociedade incluindo jovens, que questionam a alegada exclusão de jovens e organizações juvenis locais no encontro.
Nos depoimentos que circulam entre cidadãos e que QN teve acesso, a principal preocupação prende-se com a representatividade dos jovens de Cabo Delgado, sobretudo os que não estão ligados a organizações partidárias ou estruturas formais. Alguns intervenientes questionam se as diferentes correntes políticas, organizações da sociedade civil e associações juvenis locais estiveram devidamente representadas.
“Esses não foram jovens, são camaradas”, afirma um dos depoimentos, numa referência à alegada predominância de jovens ligados a estruturas partidárias que assume o contexto político do país, questionando qual terá sido a quota representativa de cada organização no encontro, mas sobre tudo do que ditou a exclusão dos não representados em formações politicas.
A polémica ganha particular dimensão pelo facto de o evento ter ocorrido em Pemba, num contexto em que a juventude local enfrenta desafios relacionados com desemprego, pobreza, falta de oportunidades e os impactos da instabilidade que afecta a província. Aliás, a mesma juventude, está indignada devido a sua exclusão nas oportunidades de empregos aos projectos de gás.
Para alguns críticos, um encontro nacional sobre a juventude realizado em Cabo Delgado deveria conferir maior espaço aos jovens naturais da província, incluindo artistas, organizações da sociedade civil e jovens que não fazem parte de estruturas partidárias.
“Eventos como este, era suposto que o maior número fosse dos nativos a abrilhantar o seu público”, manifesta um dos críticos. O mesmo participante defende que, perante os actuais desafios, as autoridades deveriam aproximar-se dos jovens, ouvi-los e criar oportunidades concretas para a sua participação.
A alegada exclusão é vista por alguns cidadãos como parte de um sentimento mais amplo de marginalização entre jovens de Cabo Delgado pelo sistema político e de governação, até há quem considere que determinadas decisões das autoridades podem aprofundar a frustração de uma camada juvenil que já enfrenta dificuldades económicas e sociais.
“Essas brincadeiras” podem aumentar o rancor entre os jovens da província, questionando como é possível trazer participantes de outras regiões e, alegadamente, deixar de fora jovens locais, incluindo artistas?
Os tais críticos defendem que o problema ultrapassa a realização de um único evento. Para eles, trata-se de uma questão de confiança entre a juventude e as instituições públicas, por isso, parte deles chegam a estabelecer uma ligação entre o sentimento de exclusão e a vulnerabilidade dos jovens à radicalização em curso neste ponto do país.
Outro ponto levantado é a alegada partidarização dos espaços de diálogo com a juventude. Julai Mussa (nome fictício) considera que, quando as autoridades procuram ouvir os jovens, deveriam privilegiar também aqueles que estão fora das organizações partidárias, por estes não terem espaço de exposição de suas ideias.
“Celebrou-se o Dia Mundial da Juventude e, por coincidência, os chamados jovens do país todo estavam reunidos na nossa cidade, mas se esqueceram ou deixam de propósito os jovens que não integram estruturas políticas”.
Para além da questão da representatividade, Julai Mussa, coloca em causa a eficácia de sucessivos encontros nacionais sobre juventude realizados no país desde a independência “quantas reuniões, seminários, workshops e conferências sobre a juventude foram realizados desde 1975 e onde estão os resultados concretos? questionou alegando que ainda há persistência da pobreza e do desemprego juvenil.
“Os jovens continuam envelhecendo pobres”, lamenta o Mita Selemane (nome fictício), defendendo que os debates precisam ser acompanhados por medidas capazes de produzir mudanças na vida quotidiana dos jovens.
Na sua perspectiva, questões como emprego devem ser discutidas no âmbito de uma reflexão mais ampla sobre a juventude e posteriormente traduzidas em mecanismos de intervenção nos diferentes sectores da economia.
Para Silva Rafael, a participação juvenil na Reunião Nacional da Juventude em Pemba não deve ser levado a sério se limitou-se à presença de jovens com interesses políticos deixando de lado aqueles que verdadeiramente representam as comunidades rurais e urbanas, artistas, empreendedores, estudantes, organizações da sociedade civil e cidadãos sem filiação partidária.
No essencial, as críticas convergem num apelo às lideranças para que procurem conhecer melhor a realidade dos jovens fora dos círculos políticos e institucionais, mas os interlocutores receiam que os dirigentes de receberem informações que não reflectem a realidade das comunidades, argumentando que, em determinadas consultas, são chamados sobretudo jovens ligados ao partido no poder, que apresentaram uma visão mais favorável da situação da juventude.
Outrossim, os críticos, o principal desafio começa depois do encerramento da reunião que passa por transformar discursos em resultados que unam a juventude não seja apenas convidada para assistir para de todos.
Entretanto, falando no distrito de Palma nesta semana, o Bispo de Pemba explicou que alguns jovens sentem-se excluídos dos megaprojectos por falta de domínio de determinadas competências, por isso, apelou-os a investir na sua formação e preparação profissional.
Segundo António Juliasse, não basta ser jovem de Cabo Delgado para ter acesso automático às oportunidades oferecidas pelos megaprojectos, acima de tudo é necessária preparação em conhecimentos e competências exigidos pelo mercado de trabalho.
No entanto, embora a questão do bispo seja relevante, Abudo, Bacar, jovem desempregado parafraseou o presidente da CTA em Cabo Delgado, Mamudo Irache, que recentemente numa conferência de imprensa na cidade de Pemba defendeu que o Governo não acompanhou as reformas de educação técnico profissional na medida em que os megaprojectos estavam chagando na província.
Já o Director Provincial da Juventude, Emprego e Desporto de Cabo Delgado, Jonas Abujate, vem com um discurso que pode matar o debate sobre o lugar da juventude nos megaprojectos, mas potências outras áreas de governação como a promoção do empego.
Por isso, Jonas Abujate, alertou esta terça-feira, 18 de Agosto, na Sala de Sessões do Governo do Distrito de Palma aos jovens da província para não se deixarem atrapalhar pelos recursos minerais existentes da pesca e das terras aráveis para a agricultura para garantir o seu sustento. (Atlas Orion)




