Por: Gilberto Macuácua Harilal
As escolas moçambicanas, que deveriam ser espaços de proteção e esperança, estão cada vez mais expostas a fenómenos que corroem a dignidade nacional desde a violência, ao consumo de álcool e drogas. Estes problemas afectam sobretudo adolescentes e jovens e reflectem uma crise social mais ampla, marcada pela fragilidade das instituições, pela erosão da dignidade na sociedade e pela incapacidade de muitos pais em gerir os desafios contemporâneos da educação dos filhos.
Os dados são alarmantes: 72% dos alunos consomem álcool e 23% consomem drogas, iniciando este percurso entre os 13 e 18 anos (Muva Moçambique, 2023). O consumo está directamente associado à agressividade, ao abuso sexual, a conflictos e à violência baseada no género. Paralelamente, 47% das raparigas na Província de Maputo já foram vítimas de assédio sexual perpetrado por colegas e professores, e entre 2014 e 2017 mais de 10.700 raparigas engravidaram nas escolas e instituições de ensino superior (MEPT; CESC, 2017).
Estes dados revelam que a escola, no lugar de ser um espaço seguro, de prevenção e proteção, tornou-se um palco de práticas que perpetuam vulnerabilidades e comprometem o desenvolvimento integral da juventude. A realidade demonstra que não basta reagir à violência quando ela acontece mas que, é necessário actuar nas causas profundas, transformar mentalidades e reconstruir valores humanos.
A Perda de Dignidade
A dignidade dos moçambicanos perde-se quando os jovens são empurrados para o consumo precoce de álcool e drogas, quando as raparigas continuam a ser alvo de violência e abusos sem mecanismos eficazes de proteção, quando professores e colegas convivem diariamente com esta realidade e em alguns casos a reforçam a exemplo do caso muito recente de Nampula, onde alguns professores vendiam drogas para os estudantes estando actualmente às contas com a justiça, e quando a juventude é aprisionada em modelos sociais que anulam o seu potencial humano.
Esta erosão da dignidade não se reflecte somente no meio escolar, trata-se de um reflexo profundo da incapacidade da sociedade em oferecer respostas adequadas aos desafios da modernidade, deixando a juventude vulnerável e sem referências sólidas para construir o futuro.
Os Pais sem Ferramentas para Educar
Um dos factores críticos desta crise é a perda de controle dos pais na educação dos filhos. Muitos homens, por conta do patriarcado e das masculinidades vigentes, não aprenderam a ser pais: a sociedade exige deles filhos, mas não lhes ensina a paternidade responsável. Presos à forma como foram educados, repetem padrões rígidos e autoritários, incapazes de dialogar com os novos contextos. A globalização e o avanço tecnológico trouxeram desafios inéditos onde as redes sociais, o acesso fácil a drogas e álcool e novas formas de violência que muitos pais não conseguem gerir. O resultado é uma juventude entregue a si mesma, sem orientação clara, vulnerável às pressões externas e às tentações do consumo.
A Necessidade de um “Update” na Paternidade
Ser pai hoje exige novas competências que vão muito além da autoridade tradicional. É preciso educar com diálogo e presença, acompanhando os filhos de forma próxima e afectiva. Também torna-se indispensável compreender os desafios tecnológicos e estar atento ao uso das redes sociais e da internet, orientando e protegendo sem recorrer apenas à disciplina rígida. Romper com o patriarcado é igualmente essencial, assumindo que ser pai não significa apenas prover, mas cuidar, orientar e partilhar responsabilidades de forma equitativa. Ao mesmo tempo, é necessário promover masculinidades positivas, que valorizem o respeito, a vulnerabilidade e o afecto como pilares da convivência familiar. Este “update” na paternidade é urgente para que os pais possam ser aliados na reconstrução da dignidade nacional e na formação de uma juventude mais consciente e resiliente.
Conclusão
A violência, o álcool e as drogas nas escolas moçambicanas são sintomas de uma sociedade que perdeu a sua dignidade e que não preparou os pais para os desafios do presente. Recuperar a dignidade exige coragem política, compromisso social e uma profunda transformação cultural. É preciso ensinar os homens a serem pais, actualizar os modelos de educação familiar e transformar as escolas em espaços de resistência e esperança. Sem esta mudança, Moçambique continuará a sonhar com o futuro sem realmente pensar nele.
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