Início Artigo de opinião REUNIÃO DE QUADROS OU REUNIÃO DE QUADRADOS?

REUNIÃO DE QUADROS OU REUNIÃO DE QUADRADOS?

Por: AX7

Há reuniões que entram para a história porque nelas se discutem ideias, se confrontam visões e se procuram soluções para os problemas de um povo. E há outras que apenas servem para confirmar uma triste realidade: quando a política deixa de ser serviço público e passa a ser um concurso de lealdades, os quadros transformam-se em quadrados.Uma reunião de quadros deveria reunir homens e mulheres capazes de pensar, questionar, discordar e propor. Gente com coluna vertebral, consciência e coragem para dizer ao poder aquilo que o poder nem sempre quer ouvir. Mas quando uma sala se enche de pessoas que aprenderam a sobreviver politicamente dizendo sempre “sim”, aplaudindo tudo, curvando-se perante quem ocupa a cadeira e confundindo lealdade com bajulação, já não estamos perante uma reunião de quadros. Estamos perante uma assembleia de escovinhas e lambe-botas.

O mais triste é quando pessoas que um dia tinham voz, sonhos e convicções acabam por vender a própria consciência em troca de uma cadeira, um cargo, uma viatura, uma nomeação ou qualquer migalha de privilégio. A cadeira torna-se mais importante do que a dignidade. O cargo passa a valer mais do que a verdade. E o silêncio transforma-se numa moeda de troca.

Mas há uma pergunta que nenhuma cadeira consegue calar para sempre: quanto vale uma posição quando, para ocupá-la, foi necessário vender a própria consciência? Um partido que governa há décadas e que carrega sobre si acusações e denúncias de repressão, perseguição política e violência contra opositores deveria, antes de qualquer reunião, olhar para dentro de si e perguntar: por que razão tantos cidadãos já não acreditam? Por que razão a juventude procura novas alternativas? Por que razão a crítica é tantas vezes tratada como ameaça? Por que razão o poder parece sentir-se mais confortável rodeado de bajuladores do que de pensadores?

Porque um sistema cercado por pessoas que nunca discordam começa a acreditar nas próprias mentiras. O problema não é ter quadros leais. O problema é transformar a lealdade em cegueira. Um verdadeiro quadro partidário não é aquele que aplaude tudo o que vem de cima. É aquele que consegue dizer não quando todos dizem sim; que consegue alertar quando os outros têm medo; que consegue defender o povo mesmo quando isso pode custar-lhe a própria posição. A história raramente é gentil com os que trocaram princípios por privilégios. As cadeiras passam. Os cargos passam. Os governos passam. Os partidos podem mudar. Mas aquilo que cada pessoa fez quando teve poder fica registado na memória colectiva.Por isso, talvez a pergunta mais importante daquela reunião não seja “quantos quadros estavam presentes?”

A verdadeira pergunta é:QUANTAS CONSCIÊNCIAS ESTAVAM PRESENTES?Porque um país não precisa de políticos que saibam apenas obedecer. Precisa de cidadãos capazes de pensar. E quando uma reunião de “quadros” já não produz pensamento, coragem, autocrítica e soluções para o povo, talvez seja hora de deixar de lhe chamar reunião de quadros. Talvez seja simplesmente uma reunião de quadrados.

AX7

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